Novas Dicas

Quem é você? Você se conhece realmente?

Essa semana teve SPFW e mais uma vez fiz minha credencial e passei mais tempo na Bienal no Parque Cândido Portinari do que em casa ou na redação.

Eu lembro como se fosse hoje da minha primeira temporada. Do meu primeiro desfile: Osklen, sentada na fila E e muito, muito feliz de estar vendo aquilo, tendo aquela oportunidade, participando de algo que eu achava tão legal. Era janeiro de 2010, mais de cinco anos atrás, e é meio inevitável olhar pra esses cinco anos e ver como tudo mudou e eu também.

Eu comecei trabalhando no FFW, como estagiária. Eu nunca pensei em trabalhar como jornalista de moda, até que eu comecei, haha. Entrei na faculdade de Jornalismo doida pra cobrir política ou cultura, mas meu primeiro estágio, três meses depois que entrei na faculdade, foi para escrever sobre moda em um blog de um e-commerce de meias. Era 2009, os blogs estavam bombando cada vez mais, e eu não fazia ideia de quem era Camila Coutinho, pra vocês terem uma ideia.

Comecei a pesquisar por causa desse estágio, e me apaixonei. E meu amor pela moda só crescia. Quando consegui a vaga no FFW, pulei de alegria no meio da Avenida Paulista, desacreditada que aquilo estava acontecendo comigo. Eu era uma menina do interior, que foi fazer a entrevista na Luminosidade, a empresa do Paulo Borges que criou o SPFW e depois comprou o Fashion Rio, usando uma camiseta do JUCA (os jogos universitários de comunicação)! Na minha primeira temporada de moda eu chegava nos backstages bem cedinho e era uma das últimas a ir embora da Bienal. Rotina de mais de 16 horas de trabalho, fácil.

Eu tive a honra de trabalhar e aprender TUDO com o Luigi Torre, com o André Rodrigues e com a Erika Palomino. Eu levei muita bronca, chorei muito – e aprendi a não chorar – e caí do cavalo várias vezes, mas considero esses episódios os que mais me fizeram aprender e crescer.

Moda é diferente de comprar roupas. É uma expressão cultural de um povo e que reflete muito da nossa sociedade. Se os estilistas estão fazendo mais comprimentos curtos do que compridos, ou vice-versa, o que isso tem a ver com a gente? O que ele tá querendo dizer? Qual a visão de mundo dele? Se uma marca prefere simplicidade a ostentação, materiais naturais a sintéticos, o que raios isso tem a ver com a gente?

Moda é isso. É também o que as pessoas estão usando na rua, como estão usando, porque estão usando, se estão usando antes de ir pra passarela e influenciando os ‘influenciadores’.

Trabalhar com moda também tem glamour. Mas a maior parte do trabalho não é nada glamouroso. Como diz minha mãe, o povo vê as pingas que a gente bebe, mas não vê os tombos que a gente leva.

No caso da moda, o povo vê os champagnes que a gente toma, mas não vê os tropicões homéricos que a gente leva. Eu tô falando da minha experiência como jornalista. Eu não sei como é a vida das blogueiras, porque sempre fui jornalista, tenho e amo o blog, mas não vivo disso. Sempre tive chefe, sempre trabalhei pra alguém ou pra alguma corporação. É muita ralação, muita gente mal educada achando que está te fazendo um favor quando na verdade estão todos trabalhando, muito grito, muita tensão, e muito, muito ego.

E muita gente que se deslumbra no meio do caminho e acha que é a Anna Wintour quando tá no primeiro emprego ainda e estilista que te trata como se ele fosse a reencarnação da Gabrielle Chanel. E tem que aguentar. Se quiser crescer, tem que abaixar a cabeça sim, saber seu lugar e aprender com tudo. O ego é um negócio foda na moda. A coisa do ‘você sabe com quem está falando?’. E se a gente não ficar esperto, pega a gente também.

Eu já fiquei deslumbrada. Eu já achei que era mais importante do que de fato eu era. Mas a vida, ah, a vida, ela mostra pra gente nosso lugarzinho e se a gente não cair na real, é engolido por essa bolha do deslumbre e do ego e do achar que tá na busca pela cura do câncer e que todas as outras pessoas do mundo deveriam se ajoelhar aos nossos pés.

Eu já achei que a maneira com que as pessoas da indústria falavam comigo ou o jeito com que elas falavam comigo era por causa de quem eu era. Mas gente, nunca é 😉 É sempre por causa do veículo que você trabalha, pelo que você pode oferecer pra eles. Se um dia você tá ‘por baixo’, esquece (nessa hora alguém fala: ‘mas todo lugar é assim’. então, mas eu nunca trabalhei com outra coisa, então tô aqui contando a minha experiência na minha área <3).

Um dia eu achei que era a maioral. Até que alguém veio e me mostrou que não. Eu fiquei um tempo achando que era, e que aquelas pessoas estavam erradas, aff recalque, aff inveja, aff sei lá o quê. Até que eu aprendi que… elas estavam certas. E que essa lição tinha sido uma das mais valiosas. A moda é só um emprego. O mais importante está lá fora. São nossos amigos de verdade, nossas relações que criamos e mantemos, a vida que a gente leva lá fora.

O importante mesmo é a maneira com que tratamos as outras pessoas e elas nos tratam independente do quanto a gente ganha no fim do mês ou quantos seguidores a gente tem ou de quantos exemplares nossa revista vende. Ninguém é mais importante do que ninguém porque tem 500 mil seguidores no instagram ou trabalha numa revista que vende 100 mil exemplares por mês. Quem é você, quando tudo isso deixa de existir?

Despida de todas as aparências, títulos, cargos, status, seguidores, acessos, roupas. Quem é você, só você? O que você construiu de sólido? Cadê a sua credibilidade? Onde estão as pessoas que te amam pelo que você tem aqui dentro, não o que você mostra do lado de fora?

Nessa semana de SPFW eu pensei um pouco sobre isso. Em como tem uma galera maravilhosa que está lá, trabalhando, fazendo seus corres, mas no fim do dia, e no jeito que trata os outros, sabe que é só um trabalho. E uma galera que não. É muito legal e maravilhoso trabalhar com moda & beleza.

É um mundo gostoso, divertido, leve, importante, especial. Mas é só um trabalho. Não vamos acreditar que somos maiores do que somos porque trabalhamos com moda. É só um trabalho.